Mariana Brasil

Terça-feira, Janeiro 03, 2006

Mariana Brasil -


Mariana Brasil ...

Capela das bonecas.




Capela das bonecas - de Mariana Brasil.

Contemplando a Pietá, na Basílica de São Pedro em Roma, eu me ajoelhei e rezei.
Nos muros do Coliseu pensando nos combates selvagens entre feras e gladiadores, eu me emocionei.
Adorei ver a torre de Piza.
Diante do mármore frio do túmulo de Santo Antonio em Padova, chorei horas a fio sem entender bem o por que.
Em Barcelona, na Espanha, admirei a Sagrada Família.
Em Paris, me encantei com a Torre Eifel.
Sonhei observando a passagem dos minutos diante do Big Ben.
Em Portugal me embebedei com vinho do Porto.
Cheguei a saudar a Estátua da Liberdade.
Rezei diante do Muro de Berlim.
Em Moscou, sentei na Praça Vermelha e repousei por muito tempo.

Eu poderia continuar a escrever sobre os belos lugares deste mundo por onde passei. Mas em lugar nenhum me senti como na capela das bonecas numa cidade do norte do Paraná, minha terra natal.
Minha casa era perto do cemitério e um de meus passatempos preferidos era ir à capela das bonecas. Através das grades eu admirava as bonecas de olhos de vidro que se abriam e fechavam. Eu sabia que algum dia o Papai Noel iria trazer uma delas para mim.
Quando ganhei minha primeira boneca de olhos de vidro, eu tinha onze anos. Era uma dorminhoca de pelúcia amarela, cabelos pretos encaracolados e olhos verdes com cílios bem longos que se abriam e fechavam, sensualmente. Era uma linda boneca.
Nem mesmo na capela das bonecas havia uma tão linda. Esmeralda, esse foi o nome que escolhi. Uma pedra preciosa rara e bela. Eu passava horas e horas olhando seu rosto. Na verdade eu sonhava ser, quando moça, tão bonita como Esmeralda. Acho que certos episódios da infância ficam enraizados no subconsciente. Até hoje eu gosto de me pentear como minha dorminhoca Esmeralda, com cabelos pretos encaracolados.
Eu me lembro que saia de casa escondida de minha mãe, montada na bicicleta de meu pai. Chegava ao cemitério, sentava diante da capela onde eu e Esmeralda conversávamos com as outras bonecas expostas atrás de grades de ferro dentro da capela para que ninguém as roubasse.
Naquela capela depositei meus sonhos de menina.
Um dia descobri porque as lindas bonecas lá ficavam. Tratava-se de uma homenagem a uma menina rica que tinha falecido de uma doença ruim.
A mãe, inconsolável, levara as bonecas de sua querida filha para a capela do cemitério.
Como menina pobre, tive apenas uma boneca. Nem foi o Papai Noel quem me trouxe. Ela foi comprada na estação rodoviária numa das tantas lojinhas decoradas com bolas douradas num 25 de dezembro de chuva e trovoada.
Foi nesse mesmo dia que descobri que o Papai Noel era outra mentira.
Na vida eu fui também boneca de luxo de homens que podiam comprar seus brinquedos preferidos. Cresci e muitas vezes meus sonhos mudaram. Não importa quantos monumentos conheci ou quantos ainda hei de conhecer, nem quantas bonecas lindas vou comprar. Mas jamais vou esquecer a dorminhoca daquela menina pobre que diante das grades da capela das bonecas no cemitério de Apucarana brincou tantas vezes com a menina pobre e cheia de sonhos. Elas ouviram meus desejos secretos e íntimas confidências. E os sonhos ficaram. Hoje, mulher adulta, gostaria de poder dar tantas bonecas a meninas pobres que como eu, um dia em vão sonharam com o Papai Noel.
Aprendi que não é correto viver a vida de uma boneca.
Que Papai Noel é um sonho bonito.
Eu sei que um dia o corpo desta menina boneca também vai repousar. E a quem nesta vida me amou de verdade, quero deixar um pedido:

Quando esse dia chegar, não quero flores nem coroas. Quero bonecas, de todos os modelos. Loiras, morenas, coloridas, de pano ou de louça. Não importa. Todo ano, quando chegar o Natal e minha capela estiver bem cheia delas, por favor, façam com que minhas bonecas cheguem às meninas pobres do mundo, com a mensagem:

"Não temam a vida. Ela não tem mistérios".

Sejam felizes. Não sejam bonecas.

Sejam "crianças".

Mariana Brasil